domingo, 30 de dezembro de 2012

Chuva e Luz

Nuvens baixas que me expandem a linha do horizonte
Para aquela luz que eu busco,
Uma aurora, um ocaso,
Talvez uma paz que talvez existirá,
só...
Eternamente só...

Ilusão ou realidade?
Beleza ou ilusão??

Palavras que surgem ao acaso, como por acaso,
como uma chuva pesada que me isola e me impede de ver
Vórtice de perda...
Onde estás?...


FG 2012

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Palavras

As palavras adiadas,
São palavras não ditas.
Uma palavra que não é  dita,
Não pode ser escutada.
"Fala  para que te entendam".

Mas há sempre o medo de te perder,
Um medo diferente dos outros medos,
Este medo invade-me
Não tenho vontade de nada
Tenho medo de um dia não ser capaz de voltar
E não será a brisa, o vento, o canto dos pássaros que me fará voltar
Tens que ser tu e o teu carinho,
e principalmente a tua compreensão
Não deixes que se apague...

FG 2012

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Assim Como



Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer
pensamento,
Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade,
Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada.
Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.
Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos, infância da doença.
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.

Alberto Caeiro

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Voltas

Voltas e mais voltas...
Sempre insegurança,
no medo do medo...

Incompreensão, na
insegurança das voltas,
do medo no medo...

Momentos de lucidez
no meio das voltas
da insegurança e do medo...

Viva la vida...
Mas com voltas e mais voltas
com medo e mais medo,
com segurança e insegurança
A velha e sempre presente
Dialética

fg 2012

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Obrigado, Vida!!

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió dos luceros que cuando los abro
Perfecto distingo lo negro del blanco
Y en alto cielo su fondo estrellado
Y en las multitudes el hombre que yo amo
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado el oído, que en todo su ancho
Traba noche y dia grillos y canarios
Martirios, turbinas, ladridos, chubascos
Y la voz tan tierna de mi bien amado
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado el sonido y el abecedario
Con él las palabras que pienso y declaro
Madre, amigo, hermano y luz alumbrando
La ruta del alma del que estoy amando
Gracias a la vida,que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha de mis pies cansados
Con ellos anduve ciudades y charcos
Playas y desiertos, montañas y llanos
Y la casa tuya, tu calle y tu patio
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió el corazón que agita su marco
Cuando miro el fruto del cerebro humano
Cuando miro el bueno tan lejos del malo
Cuando miro el fondo de tus ojos claros
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto
Y el canto de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de todos que es mi propio canto
Gracias a la vida

Violeta Parra

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

 


Quem ama é diferente de quem é.
É a mesma pessoa sem ninguém.







Fernando Pessoa

Não sei quantas almas tenho


Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.

Fernando Pessoa

domingo, 11 de novembro de 2012

Oscilação

Oscilo sempre
entre uma felicidade libertadora
e uma tristeza profunda

Pela traição dos meus valores
pelo explodir das minhas frustrações
que acabaram por me vencer

Que me "provam" que
afinal eu
é que estava mal?

Onde é que eu andava?
Onde é que andarei?
O que é que eu fiz?
Será?
Será?

E o mundo continua indiferente
Com o Outono belíssimo
Com a melodia das cores.
Deixar...Deixar...
Como num sono meio acordado
Névoa e Sol, brilho e embaçado
Sempre este movimento sinusóide




VIVO E QUERO VIVER!!!!
FG 2012

Ballet

 

Como jogos de água, ascendes vitoriosa e ufana.
Soberana,
à superfície do tablado estendes
as linhas com que nos prendes,
filigrana.

Língua de fumo da taça do turíbulo,
endoideceste em beleza.
Vermelha e quente como o sangue do patíbulo
é tua natureza.

Volátil,
rodopias em torno do teu eixo
centrifugando círculos de espuma.
Estacas. E em sonolento desleixo,
esboçando incompletos gestos lentos,
fragmentos de movimentos,
semeias flores, na bruma.

Ascendes e rodopias.
Rodopias e ascendes.
Fazes-te noites e dias
nas sombras que denuncias,
nos relâmpagos que acendes.

Célere, corres,
mimosa
e assustada.
Gaivota medrosa
na areia dourada.
O sol entontece e morde.
Num repente, libertada,
deslizas, pura escultura,
na macia curvatura
de um acorde.

Nos pontos da trajectória
que descreves, transparece
o clamor da longa história.
Tua beleza é vitória,
dura vitória da espécie.

O escopro de milhões de anos arrancou-te à pedra bruta,
modelou-te em pormenor.
O sangue de milhões de homens, em ti, a ferver, se escuta.
A harmonia dos teus gestos foi revolta, treva e luta.
O perfume do teu corpo foi temperado em suor.

(António Gedeão)

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Cântico Negro


"Vem por aqui" --- dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
--- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
--- Sei que não vou por aí.
José Régio

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A Dialética

A felicidade e a tristeza,
Apenas num pequeno gesto,
numa pequena descoberta

Schumann em todo o meu ser,
Algo de irrealidade,
pensamentos contraditórios,
luta ou desistência?

Ponho o rádio do carro mais alto!!
Fantasia Op17 em toda a sua transcendência,
embriaguez de pensamentos

Eis que me cai, suave, bem real,
Uma folha de Outono ainda esverdeada
no meu ombro, que reparei, tinha uma camisa cinzenta,
Cor e cinza, realidade e irrealidade, felicidade e tristeza


Aí senti paz de pertencer a este mundo e reconciliei-me
FG 2012


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Kerguelen

Sim...um mundo encantado
Sim...ainde existe e existirá sempre
Sim...existe
Sinto o vento que me isola,
O grito das aves,
O cheiro do vento carregado de mar
Vivaldi num só dia: Quatro estações

Se algum dia eu pudesse
Se algum dia eu tivesse que
Se algum dia acontecesse
Seria aí...

Existirá sempre um mundo encantado à nossa espera
FG 2012
"Nos somos o que fazemos.
O que não se faz, não existe.
Portanto, só existimos nos dias em que fazemos.
Nos dias em que não fazemos apenas duramos."

P. António Vieira

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Hoje chovia como um manto de isolamento.
Via-se a poucos metros de distância.
Ribombar de trovões.
Cinza , quase noite...
Cheiro a chuva a verde,
A natureza mais perto de mim.
Sinto-me mais eu, assim isolado...
Porque será?

A minha alma precisa de isolamento,
Isolamento... pois...
A dialéctica do ser: quando isolado não quero, quando rodeado quero...
Que fazer?

Saudades do tempo em que era imortal
FG 2012

sábado, 20 de outubro de 2012

Era numa casa vermelha
gasta pelo vento e pelo mar
madeira antiga janelas brancas
mas feita para mim
numa das terras mais ásperas do mundo
 
Era numa casa vermelha,
quer dizer já desbotada e gasta
sem cortinas, só vidraças
com uma porta pequena
dois andares
feita à minha medida
em que o tempo para
 
Era numa casa vermelha
numa terra inóspita
com um piano na sala
e um relógio de pêndulo
a marcar o tempo que parou
 
Era numa casa vermelha
gasta pela memória e pelo tempo
com verde e mar presente
em que o meu olhar parou
como num amor eterno
a minha alma ficou
FG 2012
 

As Poucas Palavras

“Foi um dia, e outro dia, e outro ainda.
Só isso: o céu azul, a sombra lisa,
o livro aberto.
E algumas palavras. Poucas,
ditas como por acaso.
Eram contudo palavras de amor.
Não propriamente ditas,
antes adivinhadas. Ou só pressentidas.
Como folhas verdes de passagem.
Um verde, digamos, brilhante,
de laranjeiras.
Foi como se de repente chovesse:
as folhas, quero dizer, as palavras
brilharam. Não que fossem ditas,
mas eram de amor, embora só adivinhadas.
Por isso brilhavam. Como folhas
molhadas.”


Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede

Um Simples Pensamento



É a música, este romper do escuro.
Vem de longe, certamente doutros dias,
doutros lugares. Talvez tenha sido
a semente de um choupo, o riso
de uma criança, o pulo de um pardal.
Qualquer coisa em que ninguém
sequer reparou, que deixou de ser
para se tornar melodia. Trazida
por um vento pequeno, um sopro,
ou pouco mais, para tua alegria.
E agora demora-se, este sol materno,
fica comigo o resto dos dias.
Como o lume, ao chegar o inverno.


 E.Andrade
In: Os Sulcos da Sede (2001)
As coisas belas,
as que deixam cicatrizes na memória dos homens,
por que motivos serão belas?

E belas, para quê?
Põe-se o Sol porque o seu movimento é relativo.
Derrama cores porque os meus olhos vêem.
Mas por que será belo o pôr do sol?

E belo, para quê?
Se acaso as coisas não são coisas em si mesmas,
mas só são coisas quando percebidas,
por que direi das coisas que são belas?

E belas, para quê?
Se acaso as coisas forem coisas em si mesmas
sem precisarem de ser coisas percebidas,
para quem serão belas essas coisas?
E belas, para quê?

in Poesia Completa Antonio Gedeão

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Tentativas
Tentativas vãs
Tentativas talvez um dia lidas
oscilação entre Nathanael e Zenão
Alguém vencerá?
Quem me dera resolver este dilema
A dialética do ser
FG 2012