Sou o único homem na Terra e talvez não haja nem Terra nem homem.
Talvez um deus me engane...
Talvez um deus me tenha condenado ao tempo, essa longa ilusão.
Sonho a Lua e sonho os meus olhos que a vêem.
Sonhei a noite e a manhã do primeiro dia.
Sonhei Cartago e as legiões que devastaram Cartago.
Sonhei Lucânia.
Sonhei a Colina de Gólgota e os tormentos de Roma.
Sonhei a geometria.
Sonhei o ponto, a limha, o plano e o volume
Sonhei o amarelo, o vermelho e o azul.
Sonhei os mapas-múndi e os reinos e a morte ao amanhecer.
Sonhei a dor inconcebível.
Sonhei a dúvida e a certeza.
Sonhei o dia de ontem.
Mas talvez não tenha havido ontem, talvez eu não tenha nascido.
Eu sonho, quem sabe, ter sonhado.
Jorge Luís Borges