sábado, 29 de novembro de 2014

Terror de Te AmarTerror de te amar num sítio tão frágil como o mundo 

Mal de te amar neste lugar de imperfeição 
Onde tudo nos quebra e emudece 
Onde tudo nos mente e nos separa. 

Que nenhuma estrela queime o teu perfil 
Que nenhum deus se lembre do teu nome 
Que nem o vento passe onde tu passas. 

Para ti eu criarei um dia puro 
Livre como o vento e repetido 
Como o florir das ondas ordenadas. 


Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Paz

...O Amor em podermos repousar...
...Paz...

Serradura

A minha vida sentou-se
E não há quem a levante,
Que desde o Poente ao Levante
A minha vida fartou-se.

E ei-la, a mona, lá está,
Estendida, a perna traçada,
No infindável sofá
Da minha Alma estofada.

Pois é assim: a minha Alma
Outrora a sonhar de Rússias,
Espapaçou-se de calma,
E hoje sonha só pelúcias.

Vai aos Cafés, pede um bock,
Lê o <<Matin>> de castigo,
E não há nenhum remoque
Que a regresse ao Oiro antigo:

Dentro de mim é um fardo
Que não pesa, mas que maça:
O zumbido dum moscardo,
Ou comichão que não passa.

Folhetim da <<Capital>>
Pelo nosso Júlio Dantas ---
Ou qualquer coisa entre tantas
Duma antipatia igual...

O raio já bebe vinho,
Coisa que nunca fazia,
E fuma o seu cigarrinho
Em plena burocracia!...

Qualquer dia, pela certa,
Quando eu mal me precate,
É capaz dum disparate,
Se encontra a porta aberta...

Isto assim não pode ser...
Mas como achar um remédio?
--- Pra acabar este intermédio
Lembrei-me de endoidecer:

O que era fácil --- partindo
Os móveis do meu hotel,
Ou para a rua saindo
De barrete de papel

A gritar <<Viva a Alemanha>>...
Mas a minha Alma, em verdade,
Não merece tal façanha,
Tal prova de lealdade...

Vou deixá-la --- decidido ---
No lavabo dum Café,
Como um anel esquecido.
É um fim mais raffiné.


                      Mário de Sá-Carneiro 
Além-tédio

Nada me expira já, nada me vive ---
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, enfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha cor!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.

E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...

                      Mário de Sá-Carneiro

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Sou o único homem na Terra e talvez não haja nem Terra nem homem.
Talvez um deus me engane...
Talvez um deus me tenha condenado ao tempo, essa longa ilusão.
Sonho a Lua e sonho os meus olhos que a vêem.
Sonhei a noite e a manhã do primeiro dia.
Sonhei Cartago e as legiões que devastaram Cartago.
Sonhei Lucânia.
Sonhei a Colina de Gólgota e os tormentos de Roma.
Sonhei a geometria.
Sonhei o ponto, a limha, o plano e o volume
Sonhei o amarelo, o vermelho e o azul.
Sonhei os mapas-múndi e os reinos e a morte ao amanhecer.
Sonhei a dor inconcebível.
Sonhei a dúvida e a certeza.
Sonhei o dia de ontem.
Mas talvez não tenha havido ontem, talvez eu não tenha nascido.
Eu sonho, quem sabe, ter sonhado.
Jorge Luís Borges

segunda-feira, 6 de outubro de 2014


O MedoNinguém me roubará algumas coisas, 
nem acerca de elas saberei transigir; 
um pequeno morto morre eternamente 
em qualquer sítio de tudo isto. 

É a sua morte que eu vivo eternamente 
quem quer que eu seja e ele seja. 
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte 
como, imóvel, ao coração de um fruto. 

Serei capaz 
de não ter medo de nada, 
nem de algumas palavras juntas? 

Manuel António Pina, in "Nenhum Sítio"
Não o SonhoTalvez sejas a breve 
recordação de um sonho 
de que alguém (talvez tu) acordou 
(não o sonho, mas a recordação dele), 
um sonho parado de que restam 
apenas imagens desfeitas, pressentimentos. 
Também eu não me lembro, 
também eu estou preso nos meus sentidos 
sem poder sair. Se pudesses ouvir, 
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos, 
animais acossados e perdidos 
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim, 
desamarraram-me de mim e agora 
só me lembro pelo lado de fora. 

 

Manuel António Pina, in "Atropelamento e Fuga"

domingo, 20 de julho de 2014

relegar, sempre relegar,
Fingir e relegar
não ouvir e fingir

Para quê
Nunca mais
Vou parar de alimentar este sonho

Definitivamente fora de circuito
nunca entrarei

Desalento, lento, lento desalento...

Já entendi: ou aceito ou...

tentar outro lado...


... Então, sentado ali com a maior ingenuidade, tentaria ser feliz, e talvez até conseguisse recompor o seu passado, que seria então o seu futuro, talvez conseguisse imaginar logicamente como iria ser a sua vida. Adorava imaginá-lo, pois tentaria fazer com que fosse diferente: aquela longa corrente de erros e acasos que tinham moldado a sua existência não poderia repetir-se, devia haver alguma maneira de emendá-la ou, pelo menos, de quebrá-la e ensaiar outra fórmula, na realidade outra vida...

segunda-feira, 9 de junho de 2014

PAZ

Quando olhei para esta fotografia senti-me muito confortável...
Talvez um sítio aonde tenha vivido?
Talvez um sítio aonde quisesse viver?
Paz?

quarta-feira, 7 de maio de 2014

 «Aquário com peixe»
Maria Matos Graça
  A solidão feliz

Uma multidão de peixes volteia nas águas paradas de um lago de dimensões indefinidas,
onde jaz uma cadeira de baloiço. Estes peixes vivem numa sociedade que desconhece a
existência do aquário. O peixe do aquário, todavia, sabe bem que há um lago com peixes, e
até pode saltar e juntar-se a eles, mas não quer. É verdade que está mais longe do fundo do
lago onde está pousada a cadeira que o embala. Mas está mais perto do céu, cheio de nuvens
que murmuram as virtudes da solidão. Este peixe, na esfera do seu isolamento, consegue
vislumbrar o horizonte - coisa que os outros não podem - e consegue, também, observar os
outros peixes do alto e dizer:
«Eles são livres de nadar para longe. Eu sou livre de ver mais longe. Eles conhecemse
uns aos outros. Eu conheço-os a todos. Eles são múltiplos. Eu sou uno. Sou o
peixe solitário do aquário eremita, o peixe que pode saltar... mas que não salta,
porque sabe que depois deixa de poder fazê-lo.»
Então o peixe solitário pensou e concluiu:
«Saltarei, mas primeiro vou apreciar este fim de tarde, pois pode bem ser a última
vez que estou à altura de um sol poente.»

Maria Matos Graça

domingo, 2 de fevereiro de 2014



Schläft ein Lied in allen Dingen,
Die da träumen fort un fort, 
Und die Welt hebt an zu singen,
Triffst du nur das Zauberwort.
" Os frutos gostam que lhes pintem o retrato.
Parecem ficar ali, a pedir desculpa por irem secando.
Os perfumes que exalam trazem-nos os seus pensamentos.
Chegam-nos com todas as suas fragâncias, falam-nos dos campos que deixaram para trás, da chuva que os alimentou, das alvoradas que testemunharam."
Cézanne

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

"Quando alguém conta um dia ou uma vida está a calar quase tudo, as vidas são imensas e não se podem contar só por palavras. Haveria que inventar artes de encher o silêncio e de descobrir nele o peso certo do que somos. O que se é só se pode encontrar no que não é dito, nas culpas deixadas dentro, nos castigos  que se vão escolhendo.
Oito dias são pouco tempo na vida de uma pessoa, mas nascer é só um dia e morrer também. Há alguns maiores e outros que nada importam, há semanas grandes como anos e horas infinitas, o tempo de uma vida é descontínuo e assimétrico.
Quem sobreviver aos dias lembrar-se-á deles."


Nuno Camarneiro