quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Sou o único homem na Terra e talvez não haja nem Terra nem homem.
Talvez um deus me engane...
Talvez um deus me tenha condenado ao tempo, essa longa ilusão.
Sonho a Lua e sonho os meus olhos que a vêem.
Sonhei a noite e a manhã do primeiro dia.
Sonhei Cartago e as legiões que devastaram Cartago.
Sonhei Lucânia.
Sonhei a Colina de Gólgota e os tormentos de Roma.
Sonhei a geometria.
Sonhei o ponto, a limha, o plano e o volume
Sonhei o amarelo, o vermelho e o azul.
Sonhei os mapas-múndi e os reinos e a morte ao amanhecer.
Sonhei a dor inconcebível.
Sonhei a dúvida e a certeza.
Sonhei o dia de ontem.
Mas talvez não tenha havido ontem, talvez eu não tenha nascido.
Eu sonho, quem sabe, ter sonhado.
Jorge Luís Borges

segunda-feira, 6 de outubro de 2014


O MedoNinguém me roubará algumas coisas, 
nem acerca de elas saberei transigir; 
um pequeno morto morre eternamente 
em qualquer sítio de tudo isto. 

É a sua morte que eu vivo eternamente 
quem quer que eu seja e ele seja. 
As minhas palavras voltam eternamente a essa morte 
como, imóvel, ao coração de um fruto. 

Serei capaz 
de não ter medo de nada, 
nem de algumas palavras juntas? 

Manuel António Pina, in "Nenhum Sítio"
Não o SonhoTalvez sejas a breve 
recordação de um sonho 
de que alguém (talvez tu) acordou 
(não o sonho, mas a recordação dele), 
um sonho parado de que restam 
apenas imagens desfeitas, pressentimentos. 
Também eu não me lembro, 
também eu estou preso nos meus sentidos 
sem poder sair. Se pudesses ouvir, 
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos, 
animais acossados e perdidos 
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim, 
desamarraram-me de mim e agora 
só me lembro pelo lado de fora. 

 

Manuel António Pina, in "Atropelamento e Fuga"