quarta-feira, 7 de maio de 2014

 «Aquário com peixe»
Maria Matos Graça
  A solidão feliz

Uma multidão de peixes volteia nas águas paradas de um lago de dimensões indefinidas,
onde jaz uma cadeira de baloiço. Estes peixes vivem numa sociedade que desconhece a
existência do aquário. O peixe do aquário, todavia, sabe bem que há um lago com peixes, e
até pode saltar e juntar-se a eles, mas não quer. É verdade que está mais longe do fundo do
lago onde está pousada a cadeira que o embala. Mas está mais perto do céu, cheio de nuvens
que murmuram as virtudes da solidão. Este peixe, na esfera do seu isolamento, consegue
vislumbrar o horizonte - coisa que os outros não podem - e consegue, também, observar os
outros peixes do alto e dizer:
«Eles são livres de nadar para longe. Eu sou livre de ver mais longe. Eles conhecemse
uns aos outros. Eu conheço-os a todos. Eles são múltiplos. Eu sou uno. Sou o
peixe solitário do aquário eremita, o peixe que pode saltar... mas que não salta,
porque sabe que depois deixa de poder fazê-lo.»
Então o peixe solitário pensou e concluiu:
«Saltarei, mas primeiro vou apreciar este fim de tarde, pois pode bem ser a última
vez que estou à altura de um sol poente.»

Maria Matos Graça